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O Imaterial.

19 August 2009 One Comment

andre-gorz

Como todo profissional que trabalha com planejamento sempre procuro ler muito. Além de acompanhar o que acontece no mercado de comunicação, a leitura mais “acadêmica” é sempre um hábito fundamental.

No meu caso não me limito apenas à leitura do assunto planejamento, mas busco conhecimento em todas as áreas que possam trazer novos insights e novos entendimentos sobre o comportamento humano. Compreender as pessoas é o fundamental.

O título deste post é o nome de um livro escrito pelo sociólogo austríaco André Gorz.

Neste livro, o autor faz uma análise do capitalismo, que passa por um momento de transformação fundamental. Do capitalismo moderno (que valoriza o chamado capital fixo) para o pós-moderno (centrado no capital “imaterial”).

Citarei alguns trechos do livro, mas antes algumas definições rápidas:

  1. Capital humano – A forma de saber que não é substituível, nem formalizável (experiência, discernimento, capacidades de organização e comunicação, etc.)
  2. Capital conhecimento – É o conhecimento passível de formalização, que pode ser multiplicado quase sem custos na forma de software e utilizado em máquinas.

Neste processo de transformação do capitalismo, a tecnologia e a informatização tem um papel determinante pois transformaram o capital conhecimento em commodity e valorizaram o capital humano.

O valor encontra hoje sua fonte na inteligência e na imaginação. O saber do indivíduo conta mais que o tempo da máquina. O homem, carregando consigo seu próprio capital, carrega igualmente uma parte do capital da empresa.

Em outras palavras, o fator imaterial dos produtos é mais importante do que o produto material em si. O reflexo disso é que empresas passaram a alugar o capital fixo material como prédios, máquinas e instalações. O livro cita a Nike como exemplo, que restringe suas atividades à concepção e design dos produtos, terceirizando fabricação, distribuição, marketing e todo o restante.

Mas o ponto fundamental do livro é justamente sobre a análise da crise do conceito de valor:

A heterogeneidade das atividades de trabalho ditas “cognitivas”, dos produtos imateriais que elas criam e das capacidades e saberes que elas implicam, torna imensuráveis tanto o valor das forças de trabalho quanto o dos seus produtos. (…) A crise da medição do valor põe em crise a definição da essência do valor. Ela põe em crise, por consequência, o sistema das equivalências que regula as trocas comerciais.

Na sequência o autor aborda o interesse dos investidores da Bolsa de Valores pelos “ativos imateriais” que aumenta a partir da segunda metade da década de 90 até a quebra das bolsas em 2001-2002, traçando uma relação direta entre o estouro da bolha e a dificuldade em se designar um valor para ativos não permutáveis no mercado.

E conclui:

A quebra das bolsas de 2001-2002 em primeiro lugar não provocou nenhuma depressão, mas também tampouco nenhum “saneamento”. Em 2003, começou a se formar uma nova bolha financeira que no futuro próximo conduzirá a uma nova quebra. O capitalismo caminha à beira do abismo, empurra uma montanha de dívidas nunca vista antes vista à sua frente…

Não é minha intenção aqui tentar reduzir o conteúdo do livro a alguns parágrafos, até porque o livro trata de muitos outros assuntos dentro do mesmo tema, falando inclusive de software livre. E apesar do texto denso, o livro pode trazer algumas reflexões muito interessantes. É um livro pra ser lido e relido.

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